Radioterapia

O que é a radioterapia?

A radioterapia é um tipo de tratamento que utiliza radiação de alta energia para destruir células cancerígenas, danificando o seu ADN (molécula biológica fundamental presente nas células de todos os seres vivos e na maioria dos vírus, funcionando como o manual de instruções genéticas) e impedindo que se multipliquem.

Os tecidos saudáveis também recebem alguma radiação, mas têm maior capacidade de recuperação. O tratamento é planeado por uma equipa especializada (radioncologista, físico médico, dosimetrista e técnicos), que utiliza exames de imagem e cálculos rigorosos para concentrar a dose no tumor e poupar os tecidos vizinhos.

A radioterapia pode ter intenção:

  • curativa: para eliminar o tumor
  • paliativa: para aliviar sintomas (dor, hemorragia, compressão) e melhorar a qualidade de vida

Quais os diferentes tipos de radioterapia?

A radioterapia tem evoluído de forma notável. Os tratamentos são cada vez mais curtos, personalizados e com melhor tolerância. A radioterapia continua a ser uma das principais armas contra o cancro, e a sua evolução tecnológica permite tratar mais doentes, com melhores resultados e melhor qualidade de vida.

Existem diferentes tipos de radioterapia:

  • radioterapia externa: a radiação é produzida por uma máquina (acelerador linear) fora do corpo e dirigida ao tumor. Cada sessão dura poucos minutos e é indolor. O doente não fica radioativo e pode contactar normalmente com a família
  • técnicas modernas mais utilizadas: as técnicas modernas — IMRT, VMAT, SBRT, radioterapia guiada por imagem, protonterapia, planeamento com inteligência artificial – que permitem hoje maior precisão, maior eficácia e menos efeitos secundários do que há apenas uma ou duas décadas
  • braquiterapia: a fonte de radiação é colocada dentro do corpo, em contacto direto ou muito próxima do tumor, permitindo doses elevadas num volume pequeno. Pode ser:
    • temporária: colocada durante minutos ou horas e depois retirada
    • permanente: pequenas “sementes” radioativas que ficam definitivamente no local; a radiação vai diminuindo até desaparecer ao fim de alguns meses

É possível combinar a radioterapia com outros tratamentos?

Sim. A radioterapia raramente é utilizada de forma isolada. Pode ser combinada com:

  • cirurgia
    • antes da cirurgia (neoadjuvante): reduzir o tumor para facilitar a operação (por exemplo no cancro do reto)
    • depois da cirurgia (adjuvante): eliminar células residuais (por exemplo no cancro da mama)
  • quimioterapia
    • concomitante: em simultâneo, para potenciar o efeito da radiação (por exemplo no cancro do colo do útero, cabeça e pescoço, pulmão)
  • hormonoterapia: frequente no cancro da próstata e da mama
  • imunoterapia e terapêuticas-alvo: combinações cada vez mais utilizadas em determinados tumores

A escolha da combinação depende do tipo, localização e estádio do tumor, e é decidida em equipa multidisciplinar.

Quais os efeitos secundários da radioterapia?

É importante referir que a radioterapia não torna as pessoas radioativas. Os efeitos secundários variam consoante a zona tratada, a dose e a técnica. Nem todos os doentes têm os mesmos efeitos.

efeitos agudos (durante e até semanas após o tratamento): geralmente temporários e reversíveis

  • geral: cansaço, reação da pele (vermelhidão, descamação), queda de cabelo apenas na zona tratada
  • cabeça e pescoço: boca seca, feridas na boca, alterações do paladar, dificuldade em engolir
  • tórax: tosse seca, esofagite, dor ligeira na mama
  • abdómen: náuseas, perda de apetite, diarreia
  • pélvis: aumento da frequência urinária, ardor a urinar, diarreia, irritação retal
  • cérebro: dor de cabeça, náuseas, cansaço

Os doentes devem ter um descanso adequado, alimentação equilibrada, hidratação abundante, cuidados suaves com a pele (lavar com água tépida, evitar perfumes e sol direto), medicação sintomática prescrita pela equipa. Devem inclusive comunicar sempre à equipa qualquer efeito secundário novo.

efeitos crónicos (meses a anos depois): resultam sobretudo de fibrose (endurecimento dos tecidos) e alterações dos pequenos vasos sanguíneos. Nem todos os doentes os desenvolvem.

  • cabeça e pescoço: boca seca permanente, alterações dentárias, alterações da tiróide, rigidez cervical
  • tórax: fibrose pulmonar, alterações cardíacas, endurecimento da mama
  • abdómen e pélvis: alterações intestinais e urinárias crónicas, alterações sexuais, infertilidade, fragilidade óssea
  • cérebro: alterações da memória e concentração, alterações hormonais
  • pele: alterações da cor, telangiectasias, linfedema (inchaço)

Existe ainda um pequeno aumento do risco de segundo tumor induzido pela radiação, anos depois — risco habitualmente muito inferior ao benefício de tratar o tumor atual.

Deve haver um seguimento regular do doente, hidratação cutânea e proteção solar permanente da zona tratada, vigilância dentária, cardiovascular, endócrina ou óssea conforme a região tratada, fisioterapia e reabilitação quando indicadas, apoio em sexologia ou fertilidade quando aplicável.

Quando devo contactar a equipa com urgência?

Na presença de algum efeito secundário novo ou de alguns destes sintomas deve procurar a equipa de saúde ou um serviço de urgência:

  • febre >38°C
  • vómitos ou diarreia persistentes
  • dor intensa não controlada
  • feridas com sinais de infeção
  • dificuldade respiratória
  • sangue na urina, fezes ou expetoração

Fonte: Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO)

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