Morte súbita cardíaca

O que é a morte súbita?

A morte súbita é um evento fatal e inesperado, não traumático, que ocorre no período de 1 hora a partir do início dos sintomas, num indivíduo aparentemente saudável.

Em caso de morte não presenciada, a definição aplica-se quando o indivíduo se encontrava bem 24h antes do evento.

O que é a morte súbita cardíaca?

A morte súbita define-se como morte súbita cardíaca quando:

  • uma situação cardíaca potencialmente fatal, congénita ou adquirida, foi identificada durante a vida, OU
  • a autópsia identificou uma anomalia cardíaca ou vascular como causa provável da morte súbita, OU
  • não foram identificadas causas extracardíacas óbvias através de exame post-mortem, logo um evento arrítmico foi provavelmente a causa da morte

Existem alguns sinais ou sintomas associados à morte súbita cardíaca?

Os sinais ou sintomas associados à morte súbita cardíaca são habitualmente repentinos e drásticos, e incluem:

  • perda súbita da consciência
  • ausência de respiração
  • ausência de pulso
  • colapso súbito

Estes sinais e sintomas podem ocorrer de forma inesperada, sem pré-aviso ou serem precedidos de outros sintomas como:

  • dor no peito
  • falta de ar
  • palpitações
  • tonturas

Quais as causas da morte súbita cardíaca?

As causas cardíacas associadas à morte súbita variam de acordo com o:

  • género: existe maior risco no género masculino
  • grupo etário: risco mais elevado, em idades mais avançadas

Em indivíduos jovens, há um predomínio de:

  • doenças hereditárias e com componente familiar

Nos mais velhos, especialmente homens > 40 anos, a principal causa é:

  • a doença das artérias do coração

Outra causa menos frequente é:

  • a ausência total de atividade elétrica cardíaca (assistolia) ou a atividade elétrica sem pulso

A morte súbita cardíaca tem uma forte componente hereditária e familiar (particularmente nas miocardiopatias e nas arritmias genéticas como por exemplo: Síndrome de Brugada e QT longo), pelo que o seguimento de familiares de vítimas de morte súbita cardíaca pode possibilitar o diagnóstico dessas doenças, permitindo a instituição do tratamento adequado e contribuir para a prevenção de casos adicionais de morte súbita.

Na maioria dos casos de morte súbita cardíaca o coração pára devido a uma arritmia fatal designada de fibrilhação ventricular (ritmo caótico e ineficaz) ou taquicardia ventricular mantida sem pulso, e que leva à morte em poucos minutos se não for tratada de imediato.

Quais as doenças cardíacas associadas à morte súbita cardíaca?

Na grande maioria dos indivíduos, principalmente naqueles com idade superior a 40 anos, a doença das artérias do coração é a principal responsável pela morte súbita cardíaca.

Em indivíduos jovens devem ser considerados:

  • os distúrbios genéticos, nomeadamente as canalopatias – que se associam a doenças elétricas primárias do coração (como por exemplo, a síndrome de Wolf-Parkinson-White, síndrome de Brugada, QT longo)
  • as doenças do músculo cardíaco (miocardiopatias, miocardites – vulgo inflamação do músculo do coração)
  • o consumo de substâncias de abuso

Em indivíduos mais velhos, as doenças crónicas predominam, com destaque para a doença:

  • artérias do coração, nomeadamente o enfarte agudo do miocárdio
  • válvulas cardíacas ou a insuficiência cardíaca (“coração dilatado”)

Aproximadamente 50-60% das mortes súbitas ocorrem em indivíduos sem doença cardíaca conhecida e, infelizmente, uma proporção significativa de casos de morte súbita cardíaca (2-54%), fica por explicar.

Em Portugal, a morte súbita representa cerca de 20% de todas as mortes de causa cardíaca.

Quem pode ser afetado pela morte súbita cardíaca?

De um modo geral, a morte súbita cardíaca pode afetar qualquer indivíduo, mesmo aqueles sem doença cardíaca conhecida. No entanto, é mais comum nas pessoas com:

  • história familiar de morte súbita cardíaca
  • doença das artérias do coração como o enfarte agudo do miocárdio, ou outras doenças cardíacas como a insuficiência cardíaca
  • hábitos tabágicos
  • diabetes
  • colesterol elevado
  • excesso de peso
  • hábitos de consumo excessivo de álcool

O risco de morte súbita cardíaca aumenta com a idade?

Sim. O risco de morte súbita cardíaca aumenta com a idade, principalmente porque a doença das artérias do coração se torna mais frequente em indivíduos mais velhos.

É possível prevenir a morte súbita cardíaca?

Para reduzir o risco de morte súbita cardíaca deve-se:

  • adotar um estilo de vida saudável
  • manter seguimento médico regular
  • fazer o rastreio de doenças cardíacas
  • cumprir a medicação prescrita pelo médico
  • implantar um desfibrilhador, se necessário
  • submeter a procedimentos invasivos ou cirurgia, nalguns casos

Para além disso, prevenir a doença cardiovascular é também prevenir a morte súbita cardíaca.

Só quem tem doença cardíaca pode sofrer de morte súbita cardíaca?

Não. Aproximadamente 50-60% das paragens cardíacas ocorrem em indivíduos sem doença cardíaca conhecida.

Existe alguma forma de reverter a morte súbita cardíaca?

Sim. A morte súbita cardíaca pode ser revertida com o tratamento rápido e adequado, permitindo a sobrevivência.

A probabilidade de sobrevivência depende da capacidade de se iniciarem o mais rapidamente possível as manobras de ressuscitação cardiopulmonar (RCP) (suporte básico de vida= 30 compressões/2 insuflações) e de chamar ajuda imediatamente (112), que incluem:

  • compressões torácicas (sempre)
  • insuflações ou ventilações (se possível)
  • utilização do desfibrilhador automático externo (assim que disponível)

O suporte básico de vida e a desfibrilhação aumentam substancialmente a probabilidade de sobrevivência da vítima quando iniciados nos primeiros minutos após a paragem cardíaca.

A ressuscitação cardiopulmonar deve ser continuada até a vítima recuperar, chegar a ajuda especializada ou ficar fisicamente incapaz de continuar.

O que é um desfibrilhador automático externo?

O desfibrilhador automático externo (DAE) é um aparelho portátil automatizado, com elétrodos autocolantes que se colocam no tórax da vítima (um abaixo da clavícula direita e outro na lateral esquerda abaixo da axila), e que analisa a atividade elétrica do coração e, caso seja necessário, recomenda a aplicação de um choque elétrico potencialmente capaz de reverter a situação.

Quais as consequências para a vítima que sobrevive à morte súbita cardíaca?

Os sobreviventes à morte súbita cardíaca podem mostrar sinais de lesão cerebral, que variam desde problemas ligeiros de memória até ao coma. Estas lesões resultam da redução significativa do fluxo de sangue que chega ao cérebro, causando perda da consciência. Se o ritmo do coração não retorna rapidamente ao normal, há lesão cerebral.

Para além disso, os sobreviventes à morte súbita cardíaca apresentam uma taxa de repetição do evento significativa, pelo que a implantação de um desfibrilhador é de extrema importância na maioria destes doentes.

A deteção da causa que está na origem da morte súbita cardíaca e a disponibilidade de um tratamento desempenham um papel fundamental na evolução (história natural) e no prognóstico dos sobreviventes.

Qual o impacto da morte súbita cardíaca?

O elevado número de novos casos (incidência), a potencial perda de anos de vida e o carácter repentino fazem com que a morte súbita cardíaca tenha um profundo impacto social e económico.

Fonte: Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC)