Enxaqueca

O que é a enxaqueca?

A enxaqueca é uma doença neurológica crónica que se caracteriza por episódios de dor de cabeça moderada a forte, pulsátil ou latejante (latejar), que geralmente começa de um só lado da cabeça.
É frequentemente acompanhada de náuseas e/ou vómitos, intolerância à luz, ao ruído e aos cheiros e intensifica-se com o esforço físico/movimento, o que a torna altamente incapacitante.

Enxaqueca e cefaleia são a mesma coisa?

Não. Cefaleia é o termo médico utilizado para designar a dor de cabeça. Enxaqueca é um tipo específico de cefaleia, com características próprias e em que a dor (forte, pulsátil e, habitualmente, envolvendo um lado da cabeça) se acompanha de muitos outros sintomas (náuseas, vómitos, intolerância à luz, ao barulho, ao movimento e aos cheiros, por exemplo).

Toda a enxaqueca é uma cefaleia, mas nem toda a cefaleia é uma enxaqueca.

Existe mais do que um tipo de enxaqueca?

Sim. Os principais tipo de enxaqueca são:

  • enxaqueca sem aura: é a forma mais frequente. Caracteriza-se por crises de dor de cabeça com características típicas de enxaqueca, que podem ser acompanhadas por náuseas, vómitos e maior sensibilidade à luz, aos odores e aos sons
  • enxaqueca com aura: algumas pessoas têm sintomas neurológicos temporários, designados por aura, que podem ocorrer antes ou durante a dor de cabeça.

Os sintomas de aura podem incluir:

  • alterações da visão, como pontos luminosos, linhas ou manchas
  • formigueiros ou dormência
  • dificuldade temporária em falar ou encontrar as palavras

Estes sintomas são habitualmente reversíveis (não são permanentes) e desenvolvem-se de forma gradual. Cada sintoma de aura dura geralmente entre 5 e 60 minutos. A aura pode ser acompanhada ou seguida de dor de cabeça, mas também pode ocorrer sem dor de cabeça. A mesma pessoa pode ter algumas crises com aura e outras sem aura.

  • enxaqueca crónica: a enxaqueca é considerada crónica quando existe dor de cabeça em 15 ou mais dias por mês, durante pelo menos 3 meses, sendo que, em pelo menos 8 desses dias por mês, a dor tem características de enxaqueca. A enxaqueca crónica necessita de avaliação e acompanhamento médico

A enxaqueca tem diferentes fases?

Sim. Existem várias alterações no organismo que podem preceder ou suceder a crise, em horas ou mesmo dias. À medida que uma crise de enxaqueca tem início, e evolui no tempo, podem identificar-se quatro fases diferentes:

1 – fase premonitória ou prodrómica (pródromo): nesta fase, o doente começa a sentir alguns sintomas premonitórios da crise, que podem começar horas ou 1-2 dias antes da cefaleia (dor de cabeça) propriamente dita. Estes sintomas, que variam de pessoa para pessoa, podem incluir:

  • alterações do humor
  • fadiga
  • dificuldades de concentração
  • desejo por determinados alimentos
  • alteração do apetite
  • sede
  • rigidez no pescoço
  • aumento da sensibilidade à luz e/ou som
  • bocejos constantes e sonolência
  • irritabilidade/inquietude
  • diarreia/obstipação

2 – fase da aura: esta fase inclui uma ampla gama de sintomas neurológicos (visuais, sensitivos, de linguagem ou, mais raramente, motores), de que são exemplos:

  • alterações momentâneas na visão
  • “formigueiros” ou dormência em algumas zonas do corpo
  • dificuldade temporária em compreender a linguagem e/ou articular palavras

Os sintomas são reversíveis (não são permanentes), desenvolvem-se gradualmente e cada sintoma dura geralmente entre 5 e 60 minutos. A aura pode ocorrer antes da dor de cabeça ou durante a própria crise. A aura ocorre apenas em algumas pessoas. Contudo, o mesmo doente pode ter crises de enxaqueca com e sem aura

3 – fase da cefaleia / dor de cabeça: a dor de cabeça é de intensidade moderada a forte. É tipicamente latejante ou pulsátil e é agravada pelo movimento e atividade física de rotina. Ocorre habitualmente num dos lados da cabeça (por isso se diz hemicraniana), especialmente no início da crise. No entanto, é possível sentir dor nos dois lados, ou em toda a cabeça. Durante esta fase, os doentes podem também sentir náuseas, vómitos e extrema sensibilidade à luz, aos cheiros ou ao som, ou ambos

4 – fase posdrómica (pósdromo): esta fase final tem início quando termina a cefaleia, até que a pessoa volte a sentir-se “normal” novamente. A maioria das crises melhora de forma lenta, mas, em alguns casos, as crises também podem terminar de forma mais abrupta. Habitualmente, esta fase dura menos de 12 horas, apesar de haver pessoas que notam sintomas durante mais tempo. Muitas vezes, nesta fase, é descrita uma espécie de “ressaca” após a crise. Os sintomas podem ser semelhantes aos da primeira fase, incluindo:

  • sensação de cansaço ou fadiga
  • sonolência
  • mau estar
  • dificuldades de concentração
  • dores no corpo
  • rigidez no pescoço
  • diarreia/obstipação
  • alterações de humor
  • alterações do apetite
  • sede

Quais são os principais sintomas da enxaqueca?

Os sintomas mais comuns da enxaqueca são:

  • dor de cabeça moderada a forte, muitas vezes pulsátil/ latejante
  • dor de cabeça unilateral (que afeta um lado da cabeça)
  • sensibilidade extrema à luz (fotofobia), som (fonofobia) e, por vezes, a odores
    náuseas e/ou vómitos
  • dor agravada com a atividade física habitual

Estes sintomas podem variar de pessoa para pessoa. Algumas pessoas apresentam também aura, com alterações temporárias da visão, da sensibilidade ou da linguagem.

O que causa a enxaqueca?

A enxaqueca é uma doença cerebral que resulta de uma combinação de fatores:

  • ambientais
  • genéticos

Vários estudos científicos identificaram diversas variantes genéticas importantes, que justificam, em parte, a existência de enxaqueca em várias pessoas da mesma família. Mas, para além destes fatores genéticos, que marcam uma certa suscetibilidade para a enxaqueca, terá de haver depois fatores desencadeantes, ambientais, que funcionam como uma espécie de “gatilho” para as crises.

Estes fatores podem ser internos ao organismo ou externos. Entre os mais comuns, contam-se os seguintes:

  • psicológicos: stress, ansiedade, depressão e emoções fortes
  • maus hábitos de sono: dormir demais ou de menos
  • desidratação: ingestão insuficiente de água
  • hormonais: menstruação ou ovulação
  • associados à dieta:
    • saltar refeições ou estar longos períodos sem comer
    • baixos níveis de açúcar no sangue
    • consumo de alguns alimentos, tais como citrinos, queijos, enchidos e carnes de charcutaria, adoçante artificial (como o aspartame)
    • consumo excessivo de:
      • bebidas alcoólicas e tabaco
      • cafeína: café, chás com cafeína ou refrigerantes com cafeína
  • farmacológicos: tratamento com nitroglicerina, estrogénios e consumo excessivo de analgésicos
  • atividade física: alterações repentinas do padrão habitual
  • fadiga/cansaço
  • jetlag
  • dor e tensão cervicais
  • alterações ambientais:
    • mudanças climáticas sazonais
    • alterações na pressão atmosférica
    • poluição
    • ambientes com fumo excessivo
  • estímulos sensoriais: stress visual em resultado de exposição excessiva à luz solar, exposição prolongada ao ecrã do computador ou outras luzes brilhantes ou intermitentes
  • odores intensos: perfume, incenso, produtos de limpeza, fumo do tabaco ou poluição
    ruídos altos e/ou constantes

Nem todas as pessoas têm os mesmos desencadeantes e, em algumas situações, aquilo que parece causar uma crise pode ser um sintoma inicial da própria enxaqueca. Não é necessário eliminar determinados alimentos ou atividades da rotina apenas porque podem provocar crises de enxaqueca noutras pessoas.

Se suspeitar de algum desencadeante, pode ser útil registar as crises num diário de cefaleias, anotando:

  • a data e duração
  • os sintomas, possíveis desencadeantes
  • os medicamentos utilizados

Este registo pode ajudar a identificar padrões e a definir o tratamento mais adequado.

Como posso saber se tenho enxaqueca?

O diagnóstico de enxaqueca é feito por um profissional de saúde, através da história clínica e das características das crises. Existe também uma ferramenta simples, um questionário de três perguntas, que pode ajudar a identificar pessoas com provável enxaqueca.

Durante os últimos 3 meses, ocorreu algum dos seguintes sintomas com as suas dores de cabeça:
1. Sentiu-se nauseada(o)/ maldisposta(o) enquanto estava com dor de cabeça?
Sim / Não
2. A luz incomodou-a(o) (muito mais do que quando não tem dor de cabeça)?
Sim / Não
3. As suas dores de cabeça limitaram a sua capacidade de trabalhar, estudar, ou fazer o que precisava de fazer durante, pelo menos, um dia?
Sim / Não

Se respondeu “Sim” a 2 ou mais perguntas, existe 80% de probabilidade de ter enxaqueca.

Este questionário foi desenvolvido como ferramenta de rastreio e não substitui o diagnóstico médico.

Se tem crises recorrentes de dor de cabeça, procure avaliação por um profissional de saúde, mesmo que o resultado do questionário seja negativo.

Qual é o tratamento da enxaqueca?

A enxaqueca não tem atualmente uma cura, mas existem tratamentos eficazes que podem reduzir os sintomas e o impacto da doença. Assim, o tratamento deve ter por base uma estratégia integradora, que pode passar por:

Tratamento da crise

É utilizado quando surge uma crise de enxaqueca e tem como objetivo aliviar a dor e os restantes sintomas e permitir que a pessoa retome as suas atividades.

Podem ser utilizados:

  • analgésicos
  • anti-inflamatórios não esteroides (AINEs)
  • triptanos
  • medicamentos para as náuseas e vómitos
  • alguns medicamentos da classe dos antagonistas do CGRP (Calcitonin Gene-Related Peptide, em português: peptídeo relacionado com o gene da calcitonina), por exemplo os gepants, em situações específicas

A escolha do medicamento depende das características da crise, de outras doenças ou medicamentos que a pessoa possa utilizar e de possíveis contraindicações.

Tratamento preventivo

É utilizado para reduzir a frequência e/ou intensidade das crises e pode ser considerado quando as crises são frequentes, incapacitantes ou quando o tratamento da crise não é suficiente.

Existem várias opções de tratamento preventivo, incluindo alguns medicamentos administrados por via oral e tratamentos dirigidos ao CGRP.

Podem ser utilizados:

  • medicamentos anti-hipertensores
  • alguns antidepressivos
  • alguns medicamentos antiepiléticos
  • medicamentos que atuam sobre a via do CGRP, incluindo os gepants
  • anticorpos monoclonais dirigidos ao CGRP ou ao seu recetor
  • toxina botulínica do tipo A, particularmente na prevenção da enxaqueca crónica

A escolha do tratamento deve ser individualizada e ter em conta:

  • a frequência e intensidade das crises
  • o impacto na qualidade de vida
  • outras doenças
  • outros medicamentos utilizados
  • as preferências da pessoa

O tratamento da enxaqueca deve ter acompanhamento médico e não se recomenda a toma de medicamentos sem qualquer aconselhamento.

Quando devo procurar ajuda médica?

Deve procurar avaliação médica se:

  • tiver dores de cabeça frequentes ou incapacitantes
  • as crises estiverem a aumentar de frequência ou intensidade
  • as características das dores de cabeça mudarem
  • o tratamento habitual deixar de funcionar
  • precisar frequentemente de medicamentos para tratar as crises
  • os sintomas de aura forem novos ou diferentes do habitual
  • a enxaqueca estiver a interferir significativamente com a sua vida pessoal, familiar, profissional ou escolar

Podem ser sinais de uma situação que necessita de avaliação urgente:

  • uma dor de cabeça súbita e muito intensa
  • alteração da consciência
  • dificuldade súbita em falar
  • perda de força ou sensibilidade
  • alteração visual importante
  • febre com agravamento do estado geral

Em caso de emergência, ligue 112.

Se tiver dúvidas sobre os seus sintomas ou sobre a necessidade de cuidados de saúde, pode contactar a Linha SNS 24 – 808242424 ou o seu médico assistente.

Fonte: Sociedade Portuguesa de Cefaleias (SPC) e MIGRA – Associação Portuguesa de Doentes com Enxaqueca e Cefaleias