Fibrilhação auricular
O que é a fibrilhação auricular?
A fibrilhação auricular é um distúrbio do ritmo cardíaco proveniente das aurículas (câmaras superiores do coração) que causa um ritmo irregular e frequentemente acelerado. Devido à ativação irregular e rápida das aurículas, a contração auricular diminui causando o abrandamento ou mesmo a estagnação do fluxo sanguíneo.
A fibrilhação auricular é comum?
A fibrilhação auricular é o distúrbio do ritmo cardíaco mais comum (encontra-se em cerca de 1% da população geral). Pode afetar adultos de qualquer idade, mas é muito mais frequente em pessoas mais velhas (5% em pessoas com mais de 65 anos e em 10% das pessoas com mais de 80 anos). É mais comum entre homens do que entre mulheres.
Para além disso, a fibrilhação auricular pode desenvolver-se mais facilmente nas pessoas com outros problemas cardíacos, como:
- tensão arterial elevada (hipertensão)
- diabetes
- aterosclerose (as artérias ficam entupidas com colesterol)
- doenças das válvulas cardíacas
Como se caracteriza um ritmo cardíaco normal?
Um ritmo cardíaco normal em repouso deve ser regular e entre 60 e 100 batimentos por minuto.
Os doentes com fibrilhação auricular podem ter batimentos cardíacos em repouso entre 100 e 120 por minuto. Em alguns casos, esses batimentos podem ser ainda mais altos.
Existem diferentes tipos de fibrilhação auricular?
Sim. A fibrilhação auricular pode ser caracterizada de diferentes maneiras, dependendo da frequência e da duração dos episódios. Assim, existe a fibrilhação auricular :
- paroxística: caracteriza-se poe episódios que surgem e desaparecem e, geralmente, duram menos de 7 dias. Em muitas pessoas duram minutos ou horas
- persistente: caracteriza-se pela existência de episódios de fibrilhação auricular que duram mais de 7 dias
- persistente de longa duração: aquela que ocorre com a duração superior a um ano
- permanente: este tipo de fibrilhação acontece quando é constante. Não se tenta tratá-la ou não é possível voltar ao ritmo normal
Quais os principais sintomas da fibrilhação auricular?
A fibrilhação auricular não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas. Os sintomas e a frequência com que ocorrem podem variar muito. Também é possível que uma pessoa não tenha sintomas e que a doença seja descoberta por acaso, durante um check-up de rotina. O sintoma mais óbvio da fibrilhação auricular é a palpitação cardíaca.
São também comuns:
- tonturas
- vertigens
- falta de ar
- fadiga
- náuseas
Outros sintomas incluem aperto no peito, sensação de congestão ou apenas apatia geral.
Como é feito o diagnóstico da fibrilhação auricular?
A fibrilhação auricular pode não causar quaisquer sintomas, e por isso muitas pessoas podem sofrer desta condição sem que lhe tinha sido diagnosticada.
O teste mais importante para o diagnóstico da fibrilhação auricular é o eletrocardiograma (ECG). Contudo, este exame regista apenas o batimento cardíaco durante alguns minutos, pelo que poderá ser necessária uma monitorização prolongada através de:
- monitorização Holter: monitorização cardíaca durante 24 horas. Este teste fornece a correlação dos sintomas com o ritmo cardíaco
- monitorização de eventos: regista o ritmo cardíaco em determinados momentos
- monitor cardíaco implantável: monitorização contínua do ritmo cardíaco
Quando a fibrilhação auricular é diagnosticada, o tratamento e mudanças no estilo de vida são importantes. Isso ajuda a reduzir o risco de problemas cardíacos, como o AVC e a insuficiência cardíaca.
Quais as causas desta doença?
A doença pode ter várias causas, que geralmente estão relacionadas a problemas cardíacos ou a condições que sobrecarregam o coração.
- doenças cardíacas estruturais
- pressão arterial alta (hipertensão)
- doença cardíaca valvular (especialmente estenose ou regurgitação mitral)
- cardiopatia isquémica (doença das artérias coronárias, enfarte do miocárdio)
- insuficiência cardíaca
- miocardiopatias (dilatação ou espessamento do músculo cardíaco)
- doença da válvula aórtica
- cardiopatia congénita (problema cardíaco de nascença)
- alterações no sistema elétrico do coração
- isquemia ou lesão do miocárdio
- fibrose auricular (cicatrizes nas aurículas)
- distúrbios do sistema da condução
- doenças pulmonares
- doença pulmonar obstrutiva crónica – DPCO
- embolia pulmonar
- hipertensão pulmonar
- infeções pulmonares graves
- distúrbios metabólicos e sistémicos
- hipertiroidismo (excesso de hormonas da tiroide)
- diabetes
- insuficiência renal crónica
- distúrbios de iões como o potássio ou magnésio
- fatores relacionados com o estilo de vida
- consumo excessivo de álcool
- stress emocional ou físico intenso
- apneia do sono
- obesidade
- uso de estimulantes (cafeína em excesso, drogas ilícitas)
Em alguns casos, a fibrilhação auricular ocorre sem uma causa identificável (chamada de fibrilhação auricular “isolada”).
Quais as complicações da fibrilhação auricular?
Muitos doentes vivem durante décadas sem complicações. Contudo, os doentes com fibrilhação auricular têm uma tendência 4 a 5 vezes superior de sofrer:
- Acidente Vascular Cerebral (AVC)
- insuficiência cardíaca
com consequências graves.
Quando a fibrilhação auricular tem uma frequência cardíaca alta por muito tempo, pode enfraquecer o músculo do coração. Isso pode levar a uma cardiomiopatia, que é uma forma de insuficiência cardíaca. Em muitos casos, essa condição é reversível se o ritmo ou a frequência cardíaca forem controlados.
Quem corre maior risco de ter fibrilhação auricular?
Existem muitos fatores que aumentam o risco de desenvolver fibrilhação auricular:
- estilo de vida que inclua:
- comorbilidades associadas:
- tensão arterial elevada
- doença cardíaca coronária
- defeitos cardíacos
- insuficiência cardíaca
- doença das válvulas cardíacas
- doença cardíaca reumática
- hipertiroidismo
- diabetes
- síndrome metabólica
- doença pulmonar
- doença renal
- apneia do sono
Todas as pessoas apresentam um maior risco de desenvolver este distúrbio com o aumento da idade.
Porém, ainda não entendemos completamente como a fibrilhação auricular se desenvolve. Ela pode acontecer em pessoas saudáveis, sem doenças ou fatores de risco. Estes casos designam-se por “fibrilhação auricular isolada”.
É possível ter apenas um episódio de fibrilhação auricular?
Sim, é possível ter um episódio isolado. Habitualmente, ocorre devido a um problema temporário, que pode ser tratado, sendo menos provável que se repita.
A fibrilhação auricular é hereditária?
Este é o distúrbio do ritmo cardíaco mais comum, pelo que não é raro alguns familiares terem a mesma condição. Nestes casos, é apelidada de fibrilhação auricular familiar.
Qual é o tratamento para a fibrilhação auricular?
Antes de instituir um tratamento, é importante descobrir qual a causa para a fibrilhação auricular. Para tal, é necessário efetuar uma série de testes e exames. Contudo, para controlar a fibrilhação auricular, usamos medicamentos chamados antiarrítmicos. Eles ajudam a restaurar o ritmo natural do coração e a controlar a frequência dos batimentos.
Para além dos medicamentos, a fibrilhação auricular pode ser tratada com:
- cardioversão: um procedimento simples que pretende terminar ritmos cardíacos anormais (arritmias) e recuperar o ritmo cardíaco normal. Para se efetuar a cardioversão, é necessário administrar energia elétrica ao coração através da aplicação de um choque controlado no tórax, sob anestesia. Geralmente a cardioversão é um procedimento programado, mas pode ser feito em contexto de urgência
- ablação: é um procedimento invasivo que destrói os tecidos que desencadeiam ou promovem as arritmias. São usados cateteres (tubos finos) flexíveis, geralmente inseridos através de uma veia na zona da virilha. Através dos mesmos é possível entregar energia com precisão nos tecidos-alvo no coração. Pode ser sob a forma de calor (ablação por radiofrequência) ou frio (crioablação)
Como posso prevenir uma recaída?
Para prevenir a recorrência da arritmia, é muito importante que mude o seu estilo de vida e controle os fatores de risco. Por isso importa:
- praticar exercício frequente e moderado: ajuda a regular os ritmos biológicos e ajuda a diminuir o risco de doença cardíaca
- diminuir o consumo de álcool: o consumo excessivo de álcool deve ser evitado. Nos casos em que o consumo baixo a moderado de álcool desencadear fibrilhação auricular, é aconselhável evitar o álcool por completo
- dieta equilibrada: é vital para controlar a saúde do seu coração. Recomenda-se não consumir alimentos altamente processados ou ricos em gordura, e reduzir o consumo de sal
- minimizar os níveis de stress: existem várias técnicas que podem ajudar, como exercícios respiratórios, meditação ou ioga
- não fumar: o tabagismo reduz os níveis de oxigénio no sangue e aumenta a frequência cardíaca podendo originar fibrilhação auricular
Fonte: Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC)