Enxaqueca na criança
O que é a enxaqueca?
A enxaqueca é uma doença neurológica crónica que se caracteriza por episódios de dor de cabeça moderada a forte, pulsátil ou latejante, que geralmente começa de um só lado da cabeça.
Na criança, a dor pode ser sentida na testa ou em toda a cabeça. Pode ser intensa e surgir acompanhada por outros sintomas.
Nas crianças mais pequenas, que ainda têm dificuldade em descrever o que sentem, a enxaqueca pode manifestar-se através de irritabilidade, choro, diminuição da atividade, falta de apetite ou vómitos.
Uma criança pode ter enxaqueca?
Sim. A enxaqueca pode surgir em qualquer idade, incluindo na infância. É mais frequente a partir dos 10-12 anos, mas também pode ocorrer em crianças mais pequenas. Pode acontecer que, em idade pediátrica, surjam algumas manifestações frequentemente associadas a enxaqueca, como vómitos cíclicos, dor abdominal sem outra causa aparente (enxaqueca abdominal), vertigem ou torcicolo episódicos.
A identificação destas manifestações pode facilitar o diagnóstico de enxaqueca na criança e pode também evitar o recurso excessivo a exames complementares de diagnóstico.
A enxaqueca desaparece quando a criança cresce?
A evolução da enxaqueca varia de criança para criança. Algumas crianças passam a ter menos crises à medida que crescem, mas não acontece com todos os casos. O acompanhamento médico permite avaliar a evolução da doença e ajustar o tratamento, quando necessário.
Como sei se a dor de cabeça da criança pode ser uma enxaqueca?
A enxaqueca caracteriza-se por crises repetidas de dor de cabeça. Nas crianças, a dor não tem uma localização específica, podendo mesmo ser bilateral (envolver ambos os lados da cabeça) e, tal como nos adultos, também pode ser acompanhada por náuseas ou vómitos e maior sensibilidade à luz e ao ruído. A duração e a intensidade das crises variam de criança para criança.
Pode acontecer que nas crianças pequenas seja mais difícil identificar a dor. A alteração do comportamento pode ser particularmente relevante: manifestam irritabilidade, choro e falta de apetite.
De uma forma geral, a criança deve ser avaliada por um profissional de saúde quando:
- as dores de cabeça são frequentes
- as crises interferem com a ida à escola ou com outras atividades
- a dor acorda repetidamente a criança durante a noite
- a dor é particularmente intensa ao acordar
- existem vómitos repetidos
- surgem alterações da visão
Quais os fatores que podem desencadear uma crise nas crianças?
Os fatores que desencadeiam uma crise de enxaqueca não são iguais para todas as crianças. De uma forma geral, podem estar relacionados com:
- alterações do sono
- ansiedade
- alterações da rotina
- períodos prolongados sem comer
- desidratação
- alguns alimentos ou bebidas
- outros fatores individuais
Identificar o que acontece antes de uma crise pode ajudar a perceber quais os fatores que podem estar relacionados com o aparecimento das dores de cabeça.
A enxaqueca na criança pode ser crónica?
Sim. A enxaqueca é uma doença crónica, mas ter enxaqueca desde criança não significa necessariamente que a doença seja mais grave. As crises podem ser tratadas e controladas, sobretudo para diminuir a frequência e o impacto que a doença pode ter na vida da criança.
Como é diagnosticada a enxaqueca na criança?
O diagnóstico é clínico, ou seja, perante a avaliação dos sintomas, o médico procura perceber:
- como e onde é a dor
- quanto tempo dura e com que frequência acontece
- que outros sintomas aparecem durante a crise
- se existem fatores que desencadeiam ou agravam as crises
- se existem familiares com antecedentes de enxaqueca
A necessidade de realizar exames complementares de diagnóstico depende da avaliação médica e a grande maioria das crianças não necessita ser submetida a qualquer exame, para se estabelecer o diagnóstico de enxaqueca.
Como é tratada a enxaqueca?
O tratamento da enxaqueca na criança deve ser adaptado:
- à idade da criança
- à frequência e intensidade das crises
- ao impacto que estas têm na sua vida
Após esta análise, o tratamento pode incluir:
- alterações relacionadas com o estilo de vida
- medicamentos para tratar as crises
- tratar os fatores desencadeantes
Em algumas crianças, habitualmente nos casos mais graves, pode ser útil adotar um tratamento preventivo para reduzir a frequência das crises.
Os medicamentos devem ser utilizados de acordo com a orientação de um profissional de saúde e a criança não deve ser exposta a qualquer medicação por iniciativa própria ou dos pais. Aliás, a utilização excessiva e incorreta de alguns medicamentos pode, ela própria, ser causa de cefaleias.
Que medidas podem ajudar a controlar a enxaqueca?
É importante referir que não é necessário limitar a vida da criança por ter enxaqueca. Uma criança com este diagnóstico pode beneficiar de hábitos regulares, nomeadamente:
- manter horários regulares de sono
- fazer refeições regulares
- beber água suficiente
- manter uma atividade física adequada à idade
- identificar (e evitar) situações que possam desencadear as crises
A enxaqueca pode impedir a criança de ter uma vida normal?
Não. Uma criança com enxaqueca deve poder, sempre que possível, manter uma vida normal. O tratamento procura reduzir o impacto das crises e, com isso, garantir que a criança possa manter a sua atividade escolar, brincar, praticar exercício físico e conviver com outras crianças.
Se determinadas atividades provocarem repetidamente sintomas, essa situação deve ser discutida com um profissional de saúde.
Quando é necessário procurar ajuda urgente?
Deve ser procurada assistência médica urgente quando uma criança com dor de cabeça apresenta:
- uma dor de cabeça de instalação súbita e muito intensa
- alteração da consciência
- dificuldade súbita em falar
- perda de força muscular ou sensibilidade
- alteração visual importante e persistente
- febre, com agravamento do estado geral
- convulsões
- vómitos repetidos
Em caso de emergência médica, deve ligar para o 112.
Fonte: Sociedade Portuguesa de Cefaleias (SPC) e MIGRA – Associação Portuguesa de Doentes com Enxaqueca e Cefaleias